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Foliões mascarados sobre um carro rosa na festa de Posse: máscaras de palhaço, caveira e boi, mãos erguidas, céu de tempestade atrás.

Field Research

O SAGRADO, O CAVALO-VAPOR E O PALHAÇO.

Notas de campo de Posse, Goiás: uma procissão religiosa, uma batalha a cavalo entre mouros e cristãos, e um carro rebaixado com o som no talo.

Redação .TBF.
Homem de camisa vermelha carrega a bandeira de fitas da Folia do Divino.
Sanfoneiro de boné toca no meio da multidão da festa.
Palhaço mascarado ao volante de um carro rosa, com o polegar erguido.
Palhaço de fantasia de bolinhas em pé na porta de um carro branco com o som aberto.
A fila inteira de cavaleiros formada no campo antes da investida.
Cavaleiro de elmo com penacho em silhueta contra o céu azul, lança erguida.
Cavaleiro mouro de azul e prata, montado, visto de frente.
O mesmo cavaleiro azul a pé, ao lado do cavalo ornamentado.
Jovem puxa uma máscara laranja de diabo sobre o rosto, encostado num carro.
Cavaleiro cristão de vermelho e dourado sobre cavalo branco, visto de frente.
A mesma fantasia por trás, com a capa aberta sobre os ombros.
Grupo de cavaleiros cristãos de vermelho, reunidos antes da investida.
O mesmo grupo com os cavalos, arreios e penachos de perto.
Detalhe de calça vermelha de bolinhas, uma perna enfaixada, tênis na terra.
A procissão de cavaleiros sob um céu azul largo no fim do dia.

POSSE, GOIÁS, BRASIL

Em Posse, Goiás, a história não fica no passado.

Cheguei em 24 de maio, para a festa do Divino Espírito Santo.

Vim a convite de família. Meu primo era folião, um dos que põem a Folia do Divino de pé.

A primeira impressão é religiosa.

Grupos percorrem a cidade carregando a bandeira do Divino, a pomba branca.

As pessoas abrem a casa. Cantam, rezam, visitam.

Fé, comunidade e repetição. Atravessa gerações porque as gerações continuam fazendo.

Mas Posse não termina na oração.

Alguns dias depois, a cidade muda de escala.

A visita vira espetáculo. O campo recebe cavalos, personagens, figurinos, coreografia.

A história entra pelas Cavalhadas, a encenação da batalha entre mouros e cristãos, de origem europeia e há muito incorporada ao Brasil.

Por um minuto passa por peça histórica.

Até que um carro rebaixado aparece.

E o grave chega antes dele.

Homem de camisa vermelha carrega a bandeira de fitas da Folia do Divino.
A bandeira abre o caminho. Tudo o mais em Posse vem depois dela. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Capítulo 1

Sanfoneiro de boné toca no meio da multidão da festa.
A festa é feita à mão, um tocador por vez. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Tem uma coisa curiosa acontecendo em Posse.

A tradição ali não está sendo preservada.

Está sendo produzida.

Meses de preparação. Organização, dinheiro, infraestrutura, comunicação, patrocínio, poder público.

O que podia ser só memória de comunidade também é produção.

O passado precisa de produção.

A tradição precisa de logística.

O patrimônio precisa de orçamento.

E no dia da festa tudo isso desaparece atrás do espetáculo.

Capítulo 2

Palhaço mascarado ao volante de um carro rosa, com o polegar erguido.
A máscara ali não esconde ninguém. Ela anuncia. · Felipe Tavares / .TBF. inc

É aí que entram os personagens.

Entre eles, os palhaços.

Palhaço é palavra pequena para o que eles fazem.

Mascarados e coloridos, ocupam um lugar próprio dentro das Cavalhadas. São parte da tradição e pertencem a outra coisa ao mesmo tempo.

Os mais jovens entendem sem ninguém explicar.

Vestem o personagem, põem a máscara, brincam com a própria imagem. A fantasia vira jeito de falar com os outros.

Ninguém ali está preocupado em congelar a tradição.

Eles estão usando.

E é assim que ela continua viva.

Capítulo 3

Palhaço de fantasia de bolinhas em pé na porta de um carro branco com o som aberto.
O carro é o palco, e o som é a segunda fantasia. · Felipe Tavares / .TBF. inc

No campo, cavalo ornamentado divide o chão com personagem de outro século.

E, em algum momento, carros.

Não carro como transporte.

Carro como extensão do corpo.

Máquina rebaixada e modificada para produzir presença. Som enorme. Grave que atravessa o campo.

A igreja está ali.

A história também.

E ninguém combinou de manter essas coisas separadas.

Capítulo 4

A fila inteira de cavaleiros formada no campo antes da investida.
O campo não é cenário. É rua com cerca em volta. · Felipe Tavares / .TBF. inc
Cavaleiro de elmo com penacho em silhueta contra o céu azul, lança erguida.
Mouros e cristãos, na hora exata em que a luz cede. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Essa é a parte difícil de explicar de fora.

A palavra tradição vem com uma expectativa colada nela.

A gente acha que preservar é manter.

Cultura não funciona assim.

Tradição que precisa ficar idêntica já virou peça de museu.

Tradição viva faz outra coisa.

Em Posse, os jovens não escolhem entre a tradição e o presente.

Cavaleiro mouro de azul e prata, montado, visto de frente.
O mouro, montado. · Felipe Tavares / .TBF. inc
O mesmo cavaleiro azul a pé, ao lado do cavalo ornamentado.
O mesmo mouro, a pé. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Vivem os dois.

Capítulo 5

Jovem puxa uma máscara laranja de diabo sobre o rosto, encostado num carro.
O gesto que começa tudo: vestir o rosto. · Felipe Tavares / .TBF. inc

É aqui que o palhaço fica interessante.

Ele existe dentro da tradição e escapa dela.

RITUAL

  • Personagem.
  • Máscara.
  • Ritual.
  • Patrimônio.

PESSOA

  • Pessoa.
  • Identidade.
  • Brincadeira.
  • Performance.

Quando ele sobe no carro, diante do som, alguma coisa se desloca.

A tradição não foi abandonada.

Ela ganhou outra superfície.

ERA

  • Uma máscara ritual.
  • Uma fantasia histórica.
  • Um personagem.
  • Uma festa.

TAMBÉM PODE VIRAR

  • Um acessório.
  • Uma estética.
  • Uma selfie.
  • Uma pista.

Isso não diminui a tradição.

O significado sobrevive porque alguém ainda quer ele.

Capítulo 6

Cavaleiro cristão de vermelho e dourado sobre cavalo branco, visto de frente.
Vermelho e dourado, de frente. · Felipe Tavares / .TBF. inc
A mesma fantasia por trás, com a capa aberta sobre os ombros.
E a mesma fantasia, por trás. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Tem uma palavra para isso: apropriação.

Não no sentido de roubo.

Apropriação é o que uma geração faz com o que recebeu sem ter criado.

Mecanismo antigo. Foi assim que o Brasil se construiu.

A referência europeia chegou aqui e encontrou povo indígena, população africana, catolicismo popular, festa de rua, música, oralidade, religiosidade, violência, invenção, improviso.

Nada ficou igual.

O que veio de fora aprendeu a existir aqui.

As Cavalhadas também.

Uma batalha entre mouros e cristãos carrega séculos de imaginário europeu.

Em Posse ela acontece no Cerrado.

Com o cavalo dali. Com a família dali. Com o jovem dali.

Com o dinheiro, a infraestrutura e a estética de agora.

E quando os carros aparecem, não sobra dúvida de onde estamos.

Grupo de cavaleiros cristãos de vermelho, reunidos antes da investida.
A companhia, esperando. · Felipe Tavares / .TBF. inc
O mesmo grupo com os cavalos, arreios e penachos de perto.
A companhia, com os cavalos. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Isso não é Europa medieval.

É Goiás.

O erro é procurar pureza onde tem continuidade.

A cultura brasileira é boa em fazer caber junto o que não deveria caber.

Diversidade é descrição.

O mecanismo é o que interessa.

O Brasil absorve referência e põe uma contra a outra até sair coisa nova.

Nessa fricção nasce uma língua que não é de nenhum dos dois lados.

Capítulo 7

Detalhe de calça vermelha de bolinhas, uma perna enfaixada, tênis na terra.
Tênis por baixo da fantasia. Ninguém ali vê contradição. · Felipe Tavares / .TBF. inc

Foi isso que as fotos mostraram.

Corpos de mundos diferentes no mesmo enquadramento.

A foto prova que a separação que a gente faz na cabeça não existe no campo.

Não tem área reservada para a tradição.

Outra para a juventude.

Outra para o carro.

Outra para a religião.

Tudo acontece ao mesmo tempo.

Capítulo 8

A procissão de cavaleiros sob um céu azul largo no fim do dia.
A última luz, e a festa ainda de pé. · Felipe Tavares / .TBF. inc

É isso que torna Posse mais interessante que a ideia de festa tradicional.

O que se celebra ali não é uma história que sobreviveu.

É uma história que continua servindo para alguma coisa.

Tradição não fica viva porque o guardião protege ela do presente.

Fica viva quando o presente decide o que fazer com ela.

No fim, a pergunta deixa de ser por que os jovens transformam a tradição.

A pergunta é por que a gente esperava que eles não transformassem.

Toda geração recebe símbolo que não escolheu.

Alguns são abandonados.

Outros são preservados.

Os que resistem são os que podem ser reinventados.

E nada disso pede licença para a teoria.

O fenômeno não é a tentativa de manter a tradição intacta.

É o que acontece quando ela encontra uma geração que se recusa a tratar ela como peça de museu.

E alguns séculos de história entram no mesmo campo.

O sagrado nunca terminou.

O profano nunca começou.

Estavam acontecendo ao mesmo tempo.

Talvez seja essa a cara de uma cultura viva.

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